"Você merece ser Feliz!"

Não tenho carro. Nem carta. Tudo bem: não há stress de hora de ponta, contribuo negligenciavelmente para a poluição atmosférica… mas tenho de usar transportes públicos…
Todos os dias , no percurso entre a paragem e a minha “cubata”, passo por um carro branco estacionado no parque.
“E então?! Grande novidade! Bela merda! Quem é que não passa todos os dias por carros brancos?!”
Pois está claro! Mas este é especial: tem um autocolante na traseira, e não é “I love Sporting” nem “bebé a bordo”. Diz muito singelamente “você merece ser feliz!”
Da primeira vez que reparei no autocolante, parecia uma cena do “Táxi Driver”, comigo numa de Robert DeNiro a perguntar: “Are you talking to me?!” “I don’t see no one else here!!!” “Are you talking to me?!”.
E devia mesmo ser comigo… ou não!!!
A sobre-exposição ao dito “bumper-sticker” já começa, no entanto, a causar-me um estado alarmante de psicose, a ponto de desejar possuir um jipe para me enfiar a uma velocidade assinalável pela traseira do acima mencionado carro branco!
Mudei de itinerário: o cabrão do dono do carro parece que adivinha! Lá está sempre ele (o carro), faça chuva ou faça sol, de cú alçado a mostrar-me que “mereço ser feliz”!
Olha, vai mas é para a puta que te pariu!!!
Torno a coisa pessoal: porque é que eu, logo eu, mereço ser feliz?! Não sou um cidadão exemplar; nunca salvei nenhuma criancinha chorosa de um prédio em chamas, qual Rex – o cão polícia; muito menos fiz alguma vez algo de assinalável pelo meu próximo (ou outra pessoa qualquer, já agora!).
Devo então ter sido muito bom na minha encarnação prévia! Mas não acredito em qualquer preconcepção religiosa.
Esgotei os argumentos. O caralho é que mereço ser feliz! Não encontrei razões palpáveis para merecer ser mais ou menos feliz.
O que eu sei é que aquele autocolante representa a necessidade patológica do Homem moderno atingir a todo custo a felicidade extrema (“bliss”) e duradoura, muitas vezes a custo da sua sanidade mental. É suposto a vida ter altos e baixos. Como é que poderíamos assim saber o que é felicidade e vivê-la plenamente?!
Mereço é ser poupado a esta pornografia “pseudo-freudiana”! Se quero psicanálise, vou ver o “Bom Rebelde”!
Alguém tem um pé-de-cabra à mão?!?!?!?!?!?